DUPLA DINÂMICA

Walério Araújo e Weider Silveiro armam ocasião conjunta para realizar o primeiro desfile independente de suas carreiras

Amigos há mais de 25 anos, Walério e Weider desfilam suas coleções no mesmo dia pela primeira vez, resgatando origens e essência em momento de transformação de suas marcas

Walério Araújo e Weider Silveiro moram, desde o começo dos anos 2000, no centro de São Paulo, onde também compartilham almoços e jantares aos finais de semana. Os criadores são amigos há mais de duas décadas e meia, desde que Walério aconselhou Weider, que dava seus primeiros passos na moda, a se mudar de vez para a capital paulista e, a partir de então, suas carreiras passaram a se confundir com a parceria no dia a dia.
Nas trocas sobre o ofício compartilhado, durante a elaboração das coleções, Walério e Weider perceberam que o modo de trabalhar de ambos pedia por um ritmo próprio para acontecer, por maior respiro sobre como e quando mostrar as criações, já que elas ganham forma no tempo da capacidade de execução das técnicas escolhidas por eles. Não demorou para optarem por fazer desfiles independentes, porém dividindo a mesma ocasião; será no dia 12 de outubro, às 20h, no Arquivo Histórico Municipal de São Paulo, na região central da cidade.
A primeira coleção apresentada será a de Weider, seguida da assinada por Walério. São histórias de temáticas e estética diferentes, criadas originalmente sem ligação entre si. Mas, como se trata de sintonia rara, Walério e Weider, atravessando juntos mais uma fase de mudança, criam o agora a partir do olhar para as origens e para a essência pessoal.


Weider Silveiro: Aboio


Aboio é um canto tradicional e melancólico entoado pelos vaqueiros no interior do sertão do Brasil, especialmente no Nordeste. Weider mostra a lapidação constante da moda feminina contemporânea e urbana que cria com a síntese das raízes nordestinas, compondo de forma cada vez mais afinada os elementos destes universos, como a própria melodia suave e cadenciada do canto usado para reunir os animais. A figura do vaqueiro como ponto de partida vem das vivências da infância do estilista no interior do Piauí: o padrinho de Weider era criador de gado, e o presenteava com bezerros cuidados pelos vaqueiros da fazenda. Ele, menino, observava a lida e os objetos típicos dela, como selas, estribos e manoplas.
Esses elementos são a referência para o desenvolvimento das silhuetas da coleção, o aspecto principal do trabalho de Weider. Ele evolui as técnicas de drapeados e de construção das peças com volumes, a partir de diferentes artigos de malharia elaborados pela Nanete Têxtil, apoiadora de longa data dos desfiles do estilista. A força da cultura nordestina tem grande impacto, não apenas como representação estética dos modos de um lugar específico, mas por carregar valores universais dentro de uma forma de viver própria: por isso, pode ser traduzida de maneira atual, sofisticada e com apelo global, como é a tônica de Weider enquanto criador, tão naturalmente quanto de forma regional.
Além dos itens de trabalho dos vaqueiros, as linhas da coleção também remetem à sua
indumentária, principalmente a estrutura do gibão, veste ampla de couro usada no momento de conduzir o gado pelas matas fechadas, como proteção aos atritos da vegetação. Weider traduz, num desejo de moda contemporâneo, a elegância particular do vaqueiro nordestino, emergida do senso de reverência ao ofício manifestado na maneira de usar os objetos e as vestes. O vaqueiro exerce funções de cuidar e manter o que é fundamental para o sustento das famílias num ambiente inóspito, papel que equilibra nobreza e firmeza.
A cartela de cores é sóbria, sofisticada e aposta no contraste com um único tom vivo: off
white e caramelo são iluminados por nuances de vermelho. Os tons aparecem juntos na
estampa central da coleção, protagonizada por uma versão estilizada da flor de mandacaru,
muito simbólica da flora do sertão brasileiro. O mandacaru representa abundância e
suavidade ante a seca, já que retém água para se manter vivo e é um ponto de cor na
paisagem árida. A beleza e a poética das origens nordestinas resiste, e assim é
naturalmente universal para ser traduzida em criações femininas e atuais.

Walério Araújo


Entre setembro e dezembro de 2025, Walério Araújo esteve imerso numa experiência
singular: participar da décima sétima edição do reality show A Fazenda. O estilista saiu do
programa em quinto lugar, atravessando praticamente todo o período de confinamento, o
que considera uma vitória de resistência mental. O processo de criação da coleção que
Walério desfila agora funcionou como válvula de escape para a vivência psicológica do
reality e lhe permitiu voltar-se para aspectos de sua personalidade e essência.
A apresentação é dividida em três blocos. O primeiro traduz o desafio de lidar com as
emoções num contexto de competitividade, exposição e disputa, em que elas são
constantemente levadas ao limite. Não à toa ele é inteiramente composto por looks brancos,
cor que remete à neblina que encobria a casa onde se gravava o programa, na fria
Itapecerica da Serra, arredores de São Paulo. Walério trabalha a camisaria com dimensões
amplas e aqui o destaque é a chemise de três mangas longas, que evoca de forma bem
humorada uma camisa de força, além dos adereços criados por impressão 3D de mãos
sobre os olhos, os ouvidos ou a boca: os momentos em que Walério teve que conter suas
reações durante o confinamento.
Mas os momentos de celebração no jogo também deixaram sua marca. O segundo bloco do
desfile, de peças em preto e dourado, representa a chegada de Walério ao top 10 do
programa. Cada look carrega um número, de 1 a 10, como num desfile de alta-costura dos
anos 60 comemorativo da presença do estilista entre os dez finalistas. O terceiro bloco é
todo feito em jeans e é composto pelas referências mais claras ao cenário rural do
programa. A peça que o originou é um macacão em denim feito por Walério durante o reality
a partir de uma calça e uma camisa com esse material e que, para o desfile, recebeu
bordados de pedrarias e plumas, marca registrada mais forte do criador.
Além do brilho e da textura dos bordados sobre o jeans, a última parte do desfile traz
estampas e motivos animais, alguns presentes na casa de Itapecerica, como o pavão e,
como não podia deixar de ser, a estampa de onça, onipresente nas criações de Walério,
elaboradas em parceria com a empresa têxtil Malhas Teda. As flores dominam as entradas
finais da apresentação, não só por sua presença no ambiente do reality como também no
repertório estético de Walério, em estampas corridas e no look-buquê feito de flores
aplicadas. O modelo será desfilado por Luiz Otávio Mesquita, participante da mesma edição
de A Fazenda que Walério e filho do apresentador Otávio Mesquita.
Como de costume, Walério leva à passarela parcerias criativas nos acessórios, calçados e
detalhes especiais. O designer de calçados maranhense Cláudio Carvalho é com quem
Walério cocria o modelo de bota do desfile, coberto de rebites coloridos em tons lilás,
caramelo e verde, além de preto e branco. As bolsas em tressê e cordas e os lenços
estampados, que aparecem como acessórios nas bolsas ou soltos, compõem uma collab de
Walério com a designer recifense Joana Moura. Esta coleção será colocada à venda na
semana anterior ao desfile. Walério retoma a cocriação com o Atelier Masí nas peças
manuais feitas em ponto tipo casa-de-abelha, e também conta com as peças de Kayka
(Kuhra) que elabora bolsas feitas de teclados de computadores, o que remete à presença
forte dos realities na internet. As joias usadas para compor os looks do desfile são da marca
Joielle, e aparecem em sobreposições de modelos diversos no styling de Marcell Maia, que
também assina a apresentação de Weider. As duas apresentações também compartilham a
direção de André Hidalgo e trilha sonora de Johnny Luxo.


WALÉRIO ARAÚJO/WEIDER SILVEIRO – DESFILE 2026
Data e Horário: Segunda-feira, 12 de outubro, às 20h
Local: Arquivo Histórico Municipal de São Paulo – Praça Cel. Fernando Prestes, nº 152,
CEP 01.124-060, Bom Retiro, São Paulo/SP


FICHAS TÉCNICAS
Weider Silveiro – Aboio
Direção Criativa e Estilo: Weider Silveiro
Apoio: Nanete Têxtil (malhas), Alice Marques (calçados), Jacques Janine (beleza), Cless
(beleza), Mandala (catering).


Walério Araújo
Direção Criativa e Estilo: Walério Araújo
Parceiros: Cláudio Carvalho (calçados), Fuê (peças denim) e Joana Moura (bolsas e lenços)
Apoio: Atelier Masí (peças em ponto casa-de-abelha), Kayka – Kuhra (bolsas), Joielle (joias),
Malhas Teda (estamparia corrida em malha) e Bar da Dona Onça (catering).
Walério Araújo/Weider Silveiro – Desfile 2026
Direção de Desfile: André Hidalgo
Produção Executiva: Fábio Caracas
Styling: Marcell Maia
Cabelo: Maurício Pina (Equipe Jacques Janine)
Maquiagem: Chloé Gaya (Equipe Jacques Janine)
Trilha Sonora: Johnny Luxo

fonte Agência LEMA+

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