por Alexsandro Santos
Há desfiles que celebram a forma, outros que celebram a origem. O Sou de Algodão, que apresentou sua nova edição Trajetórias no SPFW N60, fez as duas coisas — e algo mais: transformou o algodão em pensamento.

No palco, o preto absoluto dominava os 36 looks criados por seis estilistas convidados, unidos pela mesma matéria-prima — o algodão brasileiro rastreável, cultivado de forma ética e transparente. À primeira vista, a escolha da cor poderia sugerir uniformidade, mas foi justamente no preto que a coleção encontrou sua força: cada textura, cada dobra, cada volume deixava entrever a vida que pulsa por trás do tecido. Era o algodão em sua forma mais pura, revelando-se como corpo, gesto e memória.
O desfile parecia costurar o país inteiro. Da plantação ao tear, da indústria ao ateliê, da fibra ao corpo, tudo se conectava como uma rede que sustenta e dá sentido à moda brasileira. Não havia excessos: o minimalismo era um manifesto. Ao caminhar, as modelos levavam consigo o peso simbólico de uma moda que quer ser mais que beleza — quer ser responsabilidade, continuidade, escolha consciente.

Se o preto unificava, também silenciava um pouco a individualidade de cada criador, diluindo as assinaturas autorais em nome de uma voz comum. Mas talvez esse fosse mesmo o ponto: apagar o ego e dar lugar à coletividade. O Sou de Algodão nunca foi sobre a roupa apenas — é sobre o processo, sobre quem planta, quem tece e quem veste.

No fim, o que se viu não foi um desfile sobre tecidos, e sim sobre vínculos. Um gesto que lembra que vestir é também um ato de pertencimento. Em tempos de descartabilidade, o algodão se fez raiz — e, curiosamente, foi o preto que o tornou ainda mais luminoso.

